FAZ CARA DE PAISAGEM, QUE VAI DAR CERTO

Paisagem 2            Verdade seja dita: tá pra nascer o dia em que uma viagem minha vai acontecer sem que passemos por fortes emoções. Obviamente que a mais recente não poderia ter sido diferente.

Bom, antes de contar o episódio, é importante fazer um prelúdio, relatando um fato anterior, mais pra frente vocês entenderão o porquê.

Numa das vezes em que fomos ao Maranhão, para o casamento de um primo e uma prima, houve a maior confusão no check-in, pois, ao chegarmos ao balcão (eu, minha esposa e os dois pequenos), o atendente solicitou as certidões de nascimento. Prontamente entregamos cópias, autenticadas e devidamente emplastificadas, o que todo mundo sabe que tem, para nós, validade indiscutível.

Pois bem, o distinto senhor, acho que por ter tido que acordar muito cedo para estar ali, já que o voo era em tarifa promocional e naqueles horários do bacurau, bateu o pé e disse que não embarcaríamos, já que, para ele, contrariando o senso comum, as xerox de nada valiam, ele queria mesmo eram as originais.

“- Pronto! Lascou tudo.” – pensei, o embarque já estava sendo anunciado no sistema de som e nós ali, sem saber o que fazer.

Tentei argumentar com toda a minha lábia, mostrando a ele o quantos os meninos eram apegados a nós, o que nos faria certamente seus pais, ou deles (as crianças) excelente atores mirins. Chegou até a ponta da língua a hipótese de forçar a barra, dizendo que um simples papel não provaria nada, mesmo o original, pois não teria foto nem impressão digital dos pequenos, mas me contive… vai que ele compra a ideia e, o que já tava ruim, iria piorar bastante.

Embarque iniciado e nós ali. De repente, o estalo, lembrei-me de que havíamos deixado o carro na casa dos meus sogros e seguimos de ônibus ao aeroporto: “- Amor, liga pra tua casa e vê se teu pai tá acordado (se não, iria acordar com o telefone tocando), pede a ele pra pegar o carro e as certidões dos meninos e vir voando pra cá, é a nossa única chance.”

Ligação feita, dedos cruzados, meninos chorando por causa da confusão, as unhas roídas no pé dos dedos e o relógio tiquetaqueando sem parar, uma eternidade.

Mas, para noooossa alegria (perdão pelo trocadilho), naquele dia baixou em meu sogro o espírito de algum grande piloto de Fórmula 1, do Senna, eu diria, pois o coroa, entre a ligação recebida, a coleta dos documentos e o percurso até o aeroporto, de cerca de 15km, gastou menos de 15 minutos, algo impensável para quem conhece a maravilha que é o trânsito no Recife.

Enfim, corre daqui, corre de lá, e conseguimos embarcar, não sem antes agradecer ao distinto funcionário que, minutos antes havia dito, com todas as letras: “- Sinto informar, mas os senhores NÃO CONSEGUIRÃO MAIS EMBARCAR hoje”.

Dito isso, vamos ao outro episódio, que motivou este texto.

Meus pais planejaram uma viagem em família, num grupo que começou com “apenas” nove e evoluiu para onze, daqui a pouco para quinze e, no final, éramos dezessete pais, filhos, netos, tios, sobrinhos, primos e agregados.

Como nem todos decidiram viajar ao mesmo tempo, as passagens foram compradas em grupo e, o inicial, dos nove: meus pais, meu irmão, minha irmã – divorciada (guardem essa informação), o filho dela – meu sobrinho, eu, minha esposa e meus dois filhos.

O pacote era: Recife – Porto Alegre, onde passaríamos cinco dias em Gramado, depois Porto Alegre – Buenos Aires, onde passaríamos mais cinco dias e depois o caminho de volta até o Recife.

Como dizem, cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça, alertei logo à minha irmã que, como ela não é mais casada, nem o pai do meu sobrinho iria conosco, seria necessária uma autorização paterna para que ele saísse do país. Falei que era um modelo simples, mas que precisaria ser passada e reconhecida em cartório. Tudo para não ouvir novamente aquela mensagem: “- Sinto informar, mas os senhores NÃO CONSEGUIRÃO MAIS EMBARCAR hoje”. A velha conversa do filme passando na cabeça.

E ela seguiu o conselho, não fez apenas uma, mas duas autorizações, devidamente assinadas e carimbadas pelo Sr Tabelião.

A viagem iniciou, o primeiro trecho (Recife – Porto Alegre) foi tranquilo, Gramado, embora insuportavelmente quente no final do ano, é muito bonita e vale o passeio.

Depois de conhecermos o “Natal Luz”, era a vez de seguirmos para a Argentina. Chegamos ao aeroporto na hora certa, sem fila para o check-in, despachamos a bagagem e ainda tivemos tempo de tomar um café. Tava tudo indo muito bem, aliás, bem até demais.

Anunciado o início do embarque, seguimos para o portão, na fila eu perguntei a todos: “- Documentos e cartões de embarque na mão?”

“- Sim!” – responderam em coro.

Virei para minha irmã e perguntei: “- Tais com a autorização aí, né?”

… cri, cri, cri… só grilos cantando naquele momento.

Menos bronzeada do que de costume, ela me respondeu: “- Tá na mala.”

“- Por favor, me diga que está na mala de mão!”

“- Não. Tá na que eu despachei. E agora?”

Virei pra ela e disse, do alto da minha sabedoria: “- Faz cara de paisagem, e vamos ver no que dá.”

Seguimos adiante, com o peito estufado, mas as caras desconfiadas entregavam de longe que alguma coisa tava errada.

Passamos pelas esteiras e seguimos a fila até a imigração, era a hora da verdade. Entreguei os documentos meu, da minha esposa e dos meus filhos, tudo certo.

Minha irmã ainda tentou apresentar os documentos juntos com os dos meus pais e do meu irmão, para ver se a atendente se atrapalhava, mas não teve jeito. “- Cadê os responsáveis pelo menor?”

A mana logo se apresentou: “- Aqui! Presente.”

“- Sim, e o pai?”

“- Bom… veja bem…”

“- Na ausência de um dos responsáveis, é necessária uma autorização.”

“- Ah, tudo bem. Eu tenho a autorização.”

“- Ótimo! Cadê?”

“- Na mala… que foi despachada.”

“- Sem a autorização, ele não pode embarcar!”

O clima, que já estava pesado, ficou insustentável. Depois de ver minha irmã e o filho quase chorarem, a mulher do guichê disse que a única saída era correr de volta ao balcão de check-in, apelar para que localizassem a mala no avião, resgatá-la e pegar a autorização.

Pronto! Tudo acontecia novamente.

Meu pai e minha irmã correram para lá.

No balcão, o atendente, ao se dar conta de que não havia feito a pré-checagem da documentação, falou alguma coisa ininteligível pelo rádio, foi rapidamente substituído no balcão e sumiu pela esteira de bagagens. O funcionário que ficou em seu lugar perguntou à minha irmã como era a mala, e ela descreveu: “- É uma laranja com zíper azul”, mais discreta impossível… com um pouco de boa vontade e forçando a vista uma coisinha, dava até pra ver a mala no porão do avião, dali mesmo do balcão de check-in.

O fato é que, como diz a Lei de Murphy: “se algo pode dar errado, dará”, mesmo com uma mala que parecia ter sido pintada com uma caneta de marcar texto, nada de localizarem a danada.

Depois de um tempo, chega um funcionário, lá no acesso ao embarque onde estávamos (e não no balcão, para onde a minha irmã e meu pai tinham ido), com as malas na mão. Liguei imediatamente para ela, que veio mais rápido do que depressa.

Abre a mala, pega o documento, fecha a mala, funcionário leva a mala, mulher do guichê confere tudo e… finalmente, a gente consegue embarcar.

A partir daí foram aqueles momentos de silêncio, olhávamos uns para os outros, todos com a mesma cara de paisagem, e ninguém tinha coragem de dizer nada, até que o avião decola e, sem mais nem menos, passado o perigo de perdemos a viagem, caímos todos na gargalhada.

Mas as presepadas da viagem não terminaram por aí, só que isso é assunto para um outro texto, por ora ficamos por aqui.

Recife-PE, 05 de Janeiro de 2014

Augusto Vilaça

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