Pensando dentro da caixa

Atire a primeira pedra se você nunca olhou para uma comida e disse que não gostava, sem sequer ter provado. Ou se você nunca olhou para alguém e achou que “o Santo não batia”.

Pois é, por mais que a gente não queira admitir, nós, enquanto seres humanos, somos geneticamente condicionados a “pensar dentro da caixa”, usando um termo da moda para definir as limitações de alcance do nosso pensamento. Eu, como ser humano e falho, também tenho as minhas limitações, e uma delas ficou bastante evidente para mim nesses últimos dias. Logo eu, que sempre me achei uma pessoa de mente aberta e sem preconceitos, estive diante de uma situação que me fez perceber que não sou tão evoluído quanto eu pensava.

O caso é que fui designado para participar de um Curso de Tiro e, chegando ao stand onde ocorreriam as aulas, fomos recepcionados por uma equipe de instrutores da Polícia Civil. Meus dois neurônios de estimação: “Tico e Teco”, surtaram na hora e então entrei no processo de “visão de túnel”.

Fazendo um pequeno adendo para quem não sabe do que se trata, “visão de túnel” é um mecanismo instintivo de sobrevivência que herdamos dos nossos antepassados e que nos faz, diante de alguma situação de risco ou desconfiança, perder a visão periférica e focar em um único ponto à frente, o que limita nosso intelecto e nossas ações.

Assim, estava eu ali, diante de uma situação que nunca tinha vivenciado em quase vinte anos de polícia: um instrutor civil (ainda que policial) em disciplinas tão específicas como o Tiro. Devia ter algo errado… como aqueles civis iriam nos ensinar alguma coisa, em nossa área de expertise? “Colei as placas”, ou, traduzindo para linguagem não-policial, fiquei receoso, sem reação e sem saber o que esperar.

Bastou terminar a apresentação pessoal e começar a apresentação da instrução e seus objetivos que eu percebi o quanto estava errado, o quanto estava sendo preconceituoso, o quanto meu pensamento se limitava dentro daquela caixa.

Os caras dominavam o assunto e falavam de tudo com tamanha segurança e fluidez que não deixavam margem a dúvidas de que a escolha dos instrutores havia sido perfeita. Desenvoltura de causar inveja, e capacidade didática que poucas vezes eu havia visto em outros instrutores dos quais fui aluno.

Os três dias que passamos juntos voaram. Eles nos mostraram a importância e aplicação do Método Giraldi à vida policial e nos fizeram ver que nada substitui o preparo e atualização constante, pois estão em jogo as nossas vidas, a nossa liberdade, e as vidas alheias que outrora juramos defender.

A oportunidade, além de ter sido vantajosa no aspecto técnico-profissional, acho que me fez crescer mais um pouco enquanto gente, tanto que não tive a menor vergonha de reconhecer isso diante do corpo de instrutores e dos colegas de curso na falação de despedida.

Sempre é tempo de reconhecer as nosas falhas e aprender com elas, afinal Raul Seixas já dizia que a gente é “humano, ridículo, limitado e que só usa dez por cento de nossa cabeça animal”, e como eu pude perceber, esses 10% cabem perfeitamente dentro de uma caixinha.

Agora, saindo um pouco do foco de atenções, queria lançar na cabeça de vocês o seguinte questionamento: quantas vezes o seu pensamento se limitou a paradigmas como o que eu relatei aqui? Pois é, como eu imaginava, eu não sou o único…

Por fim quero mais uma vez agradecer ao empenho e dedicação da equipe de instrução a qual, quebrando as minhas próprias regras de não citar nomes nas crônicas, nomino a seguir: Adredick (zero-meia), Nunes (zero-cinco), Antônio e Kildare. Obrigado amigos, espero ter a oportunidade, em breve, de estarmos juntos novamente.

Recife, 19/04/12

Augusto Vilaça

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