Me engana que eu gosto

Assim também é demais! Já não sei no quê acreditar, acabei de ler a notícia de que a Danone vai mudar a propaganda de dois de seus iogurtes mais vendidos: Activia e Actimel, pois segundo a Autoridade Européia de Saúde Alimentar, eles não são tão milagrosos assim quando o assunto é garantir uma viagem regular, tranquila e aliviadora ao banheiro.

Olha, embora eu não seja exatamente o tipo de pessoa que tem problemas com as visitas cotidianas ao vaso sanitário, confesso que havia sido convencido pela credibilidade do comercial, com todas aquelas explicações científicas e gráficos demonstrativos, e, se por acaso eu precisasse de uma forcinha na hora de “fazer força”, com certeza toparia o desafio dos 14 Activias, mesmo porque eu não teria nada a perder, como a moça diz na propaganda: se eu não conseguir err… bom… vocês sabem… recebo meu dinheiro de volta.

A publicidade, em especial a televisiva, nos expõe a um universo de coisas imprescindíveis e maravilhosas que, se até ontem nem sequer dávamos conta da sua existência, hoje temos a plena certeza de que não vivemos mais sem elas.

Qual é a mãe atual que sobrevive sem aquelas fraldas descartáveis super-mega-master-ultra absorventes? E que dona-de-casa consegue se imaginar sem uma lavadora de roupas com capacidade para 35kg, lavagem a seco, programa para roupas delicadas, economia de energia e turbilhonamento plus? Aliás, analisando alguns comerciais, pude perceber que: se você usar o sabão em pó correto, comprar uma geladeira nova, usar um determinado barbeador e temperar a comida com um certo produto, só não vai ter uma vida plena e feliz se não quiser.

Mas tem gente que ainda consegue ser pior que o São Tomé, não querem acreditar nem mesmo no que está bem ali, diante dos seus olhos. Pra se ter uma noção do que eu estou dizendo, é só pensar um pouco sobre essa guerra declarada contra o fumo que temos visto ultimamente quando, nos tempos em que eram permitidos, os anúncios de cigarros sempre nos mostraram pessoas saudáveis, jovens, bonitas e de bem com a vida. Por que será que o tabaco faz mal a nós, mas não fazia àquela gente? Pelo contrário, inspirava-lhes um ar de saúde, elegância e autoafirmação.

Também é inconcebível acreditar que ainda hoje temos quem se preocupe com espinhas e se deixe ser enganado por tratamentos caros, demorados e até dolorosos. Ora! Será que vocês nunca viram uma propaganda de “Acnase”? Tava lá, simples e direto, era só passar um pouquinho sobre a dita cuja e ela sumia como num passe de mágica, ali mesmo no espelho.

Tem mais, não dêem ouvidos a esses médicos charlatães que vivem espalhando que o chocolate engorda. Engorda nada! Me apontem um único comercial de chocolate em que os protagonistas estejam acima do peso. Está claramente provado: o chocolate não engorda, se você comeu e engordou, isso só tem a ver com sua tendência para o ganho de peso, e nada com as calorias ou gorduras saturadas, insaturadas, polinsaturadas, trans et cetera… do doce.

E a cerveja, então? Não faz mal algum, aliás, é excelente para fazer amigos e ainda ajuda na forma física (com tantos cereais em sua fórmula, beber cerveja é quase como comer um prato de granola), ou vocês acham que os jogadores de futebol que emprestam seus nomes e reputações aos comerciais estão ali só pelo dinheiro? Claro que não! É óbvio que a cerveja que eles bebem os ajuda a manter o preparo e os deixa desinibidos para jogar tudo o que sabem, não acredita? Pergunta pro Adriano…

Com tudo aí, bem na nossa cara, não sei mesmo como é que ainda haja quem duvide do que apresentam os comerciais.

Entretanto, não estou querendo pregar aqui uma aceitação geral e irrestrita ao que vemos e ouvimos por aí. Inegavelmente, e vocês hão de concordar comigo, não é difícil se convencer de que: o elefante é fã de Parmalat, que as facas Guinsu cortam pregos como se fossem pães, e que o espremedor da Wallita consegue fazer suco até de pedra. Duro mesmo é acreditar em propaganda de político em período eleitoral, pois, como diria um conhecido meu: “assim também é demais também”, e seria muita ingenuidade para o meu gosto.

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 25/04/10

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8 Comentários

Arquivado em Crônicas do GUS

8 Respostas para “Me engana que eu gosto

  1. ju vilaça

    Pô amor, queres tirar meu ganha pão? E quanto ao tratamento contra acnes o meu resolveu, mas ainda bem que você estava longe do período crítico do tratamento se não você teria me largado quando visse o estado que eu fiquei.

    Bjos e te amo,
    Ju.

    • Augusto Vilaça

      De jeito nenhum, aliás, o texto é exatamente um elogio a você e seus colegas de profissão, sem o seu trabalho, os intervalos de programação televisiva seriam chatíssimos, agora admita que tem gente que força a barra, ehehehe.

      Ah, quanto ao tratamento, isso é que dá fazer as coisas sem me consultar, se tivesse me perguntado, eu receitava Acnase, é mais rápido, mais barato e indolor.

      Também te amo,

      Saudades.

  2. Francis

    Estamos numa evolução contante da publicidade.
    O poder … Luke, use the force… é quase como isso, só atinge as mentes mais fracas. Eu mesmo que vivo no meio disso tudo ainda me deixo levar pelas promessas dos comerciais, claro que sei que a gente fala o que os outros querem escutar. Mas não confundir horário eleitoral com comercial, pode até chamar de um programa a parte, eu me divirto assitindo os desconhecidos implorando voto em defesa da causa das formigas do norte do Xingó ou algo parecido.

    Abraço.

    • Augusto Vilaça

      O segredo é dizer o que os outros querem ouvir. Mas o interessante é como as necessidades são colocadas em nossa frente e não conseguimos mais nos livrar delas. O celular (telemóvel, para os leitores d’Além Mar), ninguém precisava deles enquanto eles não existiam, hoje não vivemos sem um, ou dois, ou muitos…

      O pior é que os políticos e suas propagandas, comerciais, anúncios ou o que quer que o seja, andam se multiplicando. Espero que nenhum deles se inspire em um cidadão maluco, insensível, baixinho, esquizofrênico e que usava um bigodinho ridículo, mas que soube, como ninguém, usar o poder da propaganda.

      E aí, meu jovem “padauã” é que está o divisor de forças, espero que você consiga se manter sempre afastado do lado negro. O universo pode estar em suas mãos.

      Do Timor, com carinho.

      E que a força esteja com você!

      • Francis

        Comes to dark side my friend!.
        Por falar em baixinho com bigode ridículo, assisti o filme A Onda (The Wave) produção alemã (claro) e recomento, ensina muito sobre como persuadir.

  3. É muito fácil acreditar no que nos dizem, quando temos uma formação repressora, que não questiona, critica, duvida, e outras coisas mais. Isso torna-se pior nas classes menos favorecidas onde a televisão é quem educa.

    Sobre a dica do filme que Frank falou, recomendo a 1ª versão. É bem melhor.

    Beijos!

    • Augusto Vilaça

      Você tem toda a razão quando diz que fazemos parte da geração que tem a TV como babá. E se aquele mundo televisivo é o único que somos acostumados a ter diante de nós, desde crianças, não é de se espantar que seja encarado como a “verdadeira verdade”.

      Vou procurar o filme, só não sei se, por essas bandas de cá, terei opções quanto a versões e tal.

      Obrigado pelo comentário,

      Do Timor, com carinho.

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