Receita para criar um Super-Herói

Uma coisa é comum às ideias malucas, elas surgem em qualquer lugar, a qualquer hora, e a qualquer momento. Aqui do outro lado do planeta a coisa não ia ser diferente… Eu estava reunido com uns amigos quando, sem mais nem menos, ou melhor, com mais (bebida) e menos (coisas importantes para pensar), um deles teve a “brilhante” ideia de me transformar em um Super-Herói.

Depois de muitas risadas, vi que eles, não sei se por estarem envolvidos pelo espírito etílico ou por se sentirem órfãos de um paladino da justiça imbuído em livrar o mundo das iniquidades, pareciam levar a coisa a sério e, como não havia outra alternativa, decidi entrar no clima.

Minha avó já dizia que três coisas não devemos rejeitar: um conselho sábio (o problema é saber quando e sábio e quando não é), um prato de comida, e o convite para ser padrinho de batismo de alguém, o que na minha terra é visto como maldição, pois quem é rejeitado no batismo, certamente vira lobisomem. Contudo, como estou muito longe da minha avó e considerando a diferença de fuso horário, fiquei com receio de a acordar no meio da madrugada só para tirar a dúvida, e acrescentei à lista, por conta própria, mais um item: “não devemos recusar um apelo para nos tornarmos um Super-Herói”. Assunto resolvido, eu só tinha uma exigência a fazer: nunca, em hipótese alguma, eu usaria a cueca por cima das calças!

Uma vez que o surgimento do mais novo defensor dos fracos e oprimidos era iminente, percebemos que a coisa não era tão simples quanto parecia e tivemos que levar em consideração alguns pontos imprescindíveis ao surgimento de qualquer herói, conforme vemos a seguir:

1 – Uniforme: um Super-Herói não é nada sem uma roupa que o identifique. Tem que ser bem colorida e colada ao corpo, de maneira a facilitar os movimentos e deixar os músculos evidentes (o que me preocupou um pouco e me fez entrar em dieta e voltar a fazer exercícios), ah, e tem que ter uma capa, que eu ainda não entendi a utilidade, mas… como foi decidido pela maioria dos votos… Também foi posto em votação se eu deveria usar a cueca por cima das calças, entretanto, embora eu tivesse sido o único voto em contrário, batí o pé e eles se apiedaram de mim, poupando-me de tamanha humilhação. Ainda não foi decidido se eu terei que usar máscara… espero que não, andei vendo umas fotos do Robin e do Fantasma e penso que o adereço comprometeu um pouco a masculinidade deles…

2 – O Surgimento: concluímos que os Super-Heróis surgem, basicamente, de três maneiras – a) depois de sofrerem um grande trauma, como aconteceu com o Batman ao ver os pais sendo mortos; b) já nascendo com poderes, igual ao Super Homem e aos X-Men; ou ainda c) através de reações químicas, tal e qual o Homem Aranha, o Super Pateta e os Ursinhos Gummy. Como ficamos um tanto indecisos, concordamos que, no meu caso, teríamos a mistura dos três: o grande trauma por eu ter visto meu time do coração ser rebaixado para a quarta divisão, aliado às reações químicas em meu organismo após sobreviver à dengue por 4 vezes, somado ao meu dom inato de mexer as orelhas para cima e para baixo.

3 – O Nome: a bem da verdade, esse foi o primeiro ponto definido pelo mentor intelectual da cena toda. A denominação seria: “Capitão Vilaça”. Eu achei pouco criativo e muito clichê, e tentei demovê-los da ideia, até porque já temos vários heróis “Capitães” como: Capitão América, Capitão Caverna, Capitão Marvel, Capitão Guapo, Capitão 7, Capitão Planeta, além de outros menos conhecidos como o Capitão Furacão, o Capitão Asa e o Capitão Cueca, e um relativamente recente que é o Capitão Nascimento. Outra vez, fui voto vencido… maldita democracia!

4 – Deslocamentos: no universo dos heróis, há os que voam, os que conseguem se teletransportar e ainda os que têm supervelocidade, mas, como não me encaixo em nenhum desses e o nosso orçamento está bastante limitado, impossibilitando-nos de comprar algo legal como um Batmóvel da vida, terei que ir me virando com uma bicicleta mesmo. Então, se você que está lendo esta crônica precisar de alguma ajuda, favor solicitar com uma antecedência mínima de 45 minutos. Mais pra frente, quando começarem a aparecer os patrocínios, será providenciado algo mais eficiente e menos cansativo. Por ora, estamos aceitando doações, caronas, vales transportes, milhas aéreas e tíquetes-alimentação.

5 – Ponto Fraco: todo Super-Herói que se preza tem uma fraqueza. Para o Super Homem é a kriptonita, o Batman, ironicamente, tem medo de morcegos e o Lanterna Verde teme a cor amarela. Espero que meus arqui-inimigos não leiam este texto, mas eu morro de medo de injeção e detesto pepino, só o cheiro me dá ânsia de vômito. Vou logo avisando que, se eu tiver que enfrentar algum vilão chamado Seringa (talvez parente do Coringa) ou um Super Picles qualquer, eu tô fora!

6 – Frase de Efeito: é uma espécie de grito de guerra para dar coragem e determinação nas batalhas contra as forças do mal. Alguns exemplos: “Lá vai a triônica, Formiga Atômica!”, “Para o Alto e Avante!”, “Sigam-me os bons!”, “Pelos poderes de Grayskull!” ou ainda “Thunder! Thunder! Thnder! Thundercats!”. Se algum de vocês tiver boas ideias, estamos aceitando sugestões. Obs.: favor mandar anexada uma autorização para uso texto, como vocês sabem, herói é um tipo de trabalho sem fins lucrativos e não temos dinheiro para pagar direitos autorais

7 – Habilidades: há três qualidades de Super-Heróis – os que têm super-poderes, os que possuem treinamentos especiais e os que utilizam equipamentos de apoio. No primeiro grupo estão o Aquaman, e o Flash, por exemplo; no segundo temos o Demolidor; no terceiro estão o Batman e o Justiceiro. Voltando ao nosso caso, o problema é que eu não faço parte de nenhum desses grupos, pois acharam que mexer as orelhas para cima e para baixo não era exatamente um super-poder (se bem que nenhum deles conseguiu…), o treinamento iria demorar muito (eu estou um tanto fora de forma, adimito) e também, por conta do baixíssimo orçamento, os únicos equipamentos especiais que dispunhamos eram uma pochete, um estilingue e uns óculos de natação.

Mas a coisa não parava por aí… criar um Super-Herói não é fácil, são muitos aspectos a serem levados em consideração e, como a cerveja já estava esquentando, sugeri que deixássemos a ideia um pouco de lado, o que foi aceito por todos. Pronto, agora é só esperar e torcer para que eles se esqueçam dessa maluquice quando o álcool passar, afinal, com trinta e poucos anos na cara, vou me sentir profundamente envergonhado andando por aí com uma roupa coladinha, ridícula e espalhafatosa, e ainda usando a cueca por cima das calças, achando que posso salvar o Mundo… É mesmo muito constrangedor… Pôxa vida, nunca pensei que iria sentir pena do Super Homem.

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 05/04/10

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14 Comentários

Arquivado em Crônicas do GUS

14 Respostas para “Receita para criar um Super-Herói

  1. Olá! Capitão Vilaça

    Rapaz esse negócio de mexer as orelhas…. Tá mais pra ser o Feiticeiro, já que a feiticeira mexe o nariz.
    Beijos!

    • Augusto Vilaça

      Menos mal que me comparaste à Feiticeira, ehehehe. Pior seria se tivesse sido ao Dumbo…

      Ainda estou tentando descobrir como posso usar isso contra os meus inimigos.

      Obrigado pela visita e pelo comentário.

      Do Timor, com carinho.

      P.S.: já atualizei o endereçamento do teu Blog.

  2. Bernardo R. A.

    Agora falta decidir se o alter ego se esconde atrás de uns óculos de jornalista ou no alto da sua mansão…
    Em vez da mascara também podemos pensar num caracolinho de cabelo no meio da testa!

    Abraço

    • Augusto Vilaça

      Ha Ha Ha! Muito engraçado, já que quem vai se expor ao ridículo simplesmente para salvá-los do perigo sou eu, né?

      Se bem que eu gostei da história da mansão… ehehehe.

      Obrigado pela visita e pelo comentário.

      Do Timor, ou melhor, daqui, com carinho.

  3. Caro capitão-amigo e agora SUPER-HERÓI, discordo da sua intenção de rejeição ao nome de CAPITÃO VILAÇA, vencido pela ditaura da maioria, ou desculpe-me quis dizer DEMOCRACIA…KKKKK
    pois o senhor será o único super herói capitão concorrendo ao posto de super-herói MAJOR, TEN CEL e CORONEL… NÃO TINHA PENSADO NISSO, “NERA?”
    ABRAÇO.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • Augusto Vilaça

      Grande Dgelis,

      Não se trata de aversão ao nome, apenas achei pouco criativo, o grande problema é que, mesmo eu chegando a ser promovido, na realidade quem subirá de nível hierárquico é o alterego, não o Super-Herói, que sempre continuará capitão.

      Velho, obrigado pela visita ao Blog e fique atento, pois estamos em busca de um parceiro para o CV, você preenche bem os requisitos, vamos ver como fica numa roupinha ridícula como a do Robin, ehehehe.

      Obrigado pelo comentário,

      Do Timor, com carinho.

  4. Diverzulu

    Bem, eu insisto em Capitão Vilaça ou apenas o mais internacional Capitão V (Captain V ?) mas o que nunca poderá ser deixado na ignorância é o facto (fato ?) de o CV ter surgido da radioactividade emanada do Kursk quando o CV foi surpreendido num mero (garoupa bem nutrida) mergulho de diversão nos mares do norte.

    Um abraço iDILIco

    • Augusto Vilaça

      Prezado Davin (depois vocês descobrirão o que significa…),

      Essa de Capitão V ficou complicada pro meu lado, o “V” em aberto dá margem a muitas interpretações… Deixa por extenso mesmo que tá tudo certo.

      Quanto à essa história de radioatividade (é sem o “c”, ehehehe), confesso que não entendi nada, mas, ao que parece, é algo bem perigoso e renderia uns bons 3 episódios de aventuras para contar tudo como se passou.

      Obrigado pela visita e pelo comentário,

      Daqui, com carinho.

  5. Diverzulu

    Já se encontram à venda máscaras de CV, por 5USD bem regateados, em frente ao Castaway.

    😉

    • Augusto Vilaça

      Psiu! Fica quieto! Vamos comprar e revender os estoques nas lojas de produtos oficiais do Capitão Vilaça, esqueceu-se de que temos de levantar fundos para comprar o meu transporte? Tô cansado de salvar as pessoas de bicicleta…

      Abraço.

  6. ju vilaça

    Capitão V, sunguinha por cima da roupa, tô gostando não dessa história. Sem falar que na minha posição de esposa de super-herói fica complicado, essa história de salvar mocinhas indefesas rola não. Agora eu vou adorar ser uma Mary Jane da vida.

    E.O.S.H.

    • Augusto Vilaça

      Muito bem! Apoiada! Até mesmo os super-heróis precisam de uma ajudinha, de vez em quando…

      Você tocou num assunto interessante, que já está no script do nosso próximo papo sobre super-heróis (é, não acabou, tem muito o que falar ainda…), já percebeu que as namoradas dos heróis têm sempre nome composto? Lois Lane, Mary Jane, Carmem Electra e até Bat Girl? Hummm… precisamos criar um nome artístico pra você, sugestões?

      Ah, obrigado pela visita e feliz dia do beijo!

      Daqui, com amor,

      Nos vemos em breve!

  7. Francis

    Olá caro amigo,

    Antes de mais nada gostaria de deixar claro o papel de um herói.
    Héroi é o cara de deixa suas vontades abaixo do bem maior, do dever. É quem representa facetas e virtudes que o homem comum não consegue mas gostaria de atingir – fé, coragem, força de vontade, determinação, paciência, etc. É guiado por ideais nobres e altruístas: liberdade, fraternidade, sacrifício, coragem, justiça, moral, paz…
    Super-Herói é coisa mesmo de Gibi, se for pra votar, com certeza você já tá sendo um Herói independente da roupagem gay que venha a vestir.

    Parabéns pelo post e exemplo de vida.

    • Augusto Vilaça

      Pôxa, eu quase choro… Mas acho que herói é uma palavra muito forte, não me vejo ostentando uma distinção tão grande.

      A verdade é que sou uma pessoa que seguiu um ideal e viveu um sonho, mas que tem pago um preço muito alto por causa disso, afinal não é fácil ficar longe de casa quando se é afortunado com família e amigos maravilhosos.

      A missão está chegando ao fim, e tenho a sensação do dever cumprido “vim, vi e venci”, sei que fiz o meu melhor, mas não anseio reconhecimento algum, além do da minha própria consciência, e o único prêmio que eu espero é o carinho dos que ficaram no Brasil, além de um pouco de paciência para me aturarem no processo de readaptação.

      Família, amigos, companheiros de farda, saibam que foram essenciais para o cumprimento da minha jornada, afinal sempre pensei em honrar a todos vocês a cada etapa que eu cumpria, afinal, como diz a oração dos Forças Especiais:

      “E nunca envergonhemos nossa fé, nossas famílias e nossos camaradas!”

      Do Timor, com carinho,

      Nos vemos em breve!

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