A última Coca-Cola do deserto

Imaginem-se vagando em pleno deserto, com sede, cansados e sendo duramente castigados por um sol causticante. A vista não consegue enxergar muita coisa além das ondas de calor e da brisa arenosa que teima em ficar entrando em seus olhos, tornando o esforço em mantê-los abertos num verdadeiro sacrifício. De repente, não me perguntem como, apenas acompanhem o raciocínio, aparece à sua frente uma garrafa de Coca-Cola aparentando estar “estupidamente” gelada, também não me perguntem como isso é possível, continuem focados na ideia…

Bom, tirando os naturebas de plantão, os apreciadores de Coca Zero e um primo meu, que só toma Guaraná Antarctica, todos vocês (e eu me incluo no grupo) iriam achar que aquilo era a coisa mais valiosa e importante que poderia existir. Pois é, tem gente que se acha exatamente assim: “a última Coca-Cola gelada do deserto”, o tipo de pessoa que acredita ser melhor e mais capaz do que todo o Mundo, e que não mede esforços para tentar nos convencer disso.

Eu conheço um monte deles e, deixando de lado uma ameaça de prisão quando eu, já cansado de ouvir lorotas, cheguei para um que era meu superior e disse: “- Chefe, dê-me licença, mas mentira eu só gosto quando eu conto…”, na maioria dos casos eles nos rendem não só boas risadas como também assunto para várias semanas de comentários, desde que eles não estejam presente, lógico.

Seja no Brasil ou aqui do outro lado do Mundo, acho que tenho alguma espécie de ímã para o tipo, pois estou sempre esbarrando em um. Os arquétipos são os mais variados e abrangem uma gama que vai de heróis de guerra a viajantes intergalácticos.

Teve um, certa vez, falando que vinha em sua moto, altíssima velocidade, quando observou um caminhão cruzado na pista. O que ele fez? Na velocidade em que vinha, deitou a moto e deslizou por baixo do caminhão, levantando em seguida e continuando a viagem. Ah, e com direito a xingar o caminhoneiro que assistiu à cena em estado de choque. Como, infelizmente, eu tenho uma boca grande demais e certas coisas são mais fortes do que eu, não me contive e  soltei: “- Ah, eu vi esse filme: O Motoqueiro Fantasma”. Se arrependimento matasse… o cidadão fechou a cara e passou quase um mês sem falar comigo, até o dia em que veio me contar outra de suas cinematográficas peripécias motociclísticas, mas eu já tinha aprendido a lição e ouvi caladinho.

Outra bem interessante foi quando estávamos no quartel e o comandante convocou a todos para a educação física militar. Para quem não sabe, nos quartéis, com raras exceções, só se pratica atividade física de duas formas: jogando futebol ou correndo, e, como as nossas habilidades futebolísticas não eram dignas de ser reconhecidas, só nos restava a corrida. Um dos presentes, adepto da musculação e inimigo mortal do jogging, tentou se esquivar apresentando uma unha encravada que, teoricamente, o impediria de participar. Pois não é que o comandante, para não ficar pra trás, tirou imediatamente os tênis e, para espanto geral, mostrou que estava com duas unhas encravadas, mas ainda disse que seria ele a puxar o ritmo do pelotão. O final da história é bem previsível, não é?

É impressionante, mas o chefe conseguia ganhar até na quantidade de unhas encravadas. Aliás, ele é do tipo que sempre vence. Desde cedo descobrimos que não há o que argumentar contra ele e, nos raríssimos casos em que conseguimos um empate, temos que nos dar por satisfeitos e considerar como uma milagrosa vitória. Contudo, o cara é bom sujeito, e tem um coração de ouro, senão ninguém o aguentava.

Falando em não perder uma, tem o tipo “galã pegador”, sabe aquele indivíduo a quem você nunca apresentaria sua irmã, mãe ou avó, devido à todas as histórias que ele já contou e ao currículo que ele diz ter? É ele mesmo! Sinceramente, eu acredito que o Rodolfo Valentino e o Giovanni Casanova teriam muito a aprender com ele. Embora nunca tenhamos visto uma única prova de veracidade de tudo que ele conta, não há dúvidas de que suas técnicas de sedução são infalíveis e, mesmo eu tendo a plena certeza da minha opção sexual, evito conversar com ele desacompanhado e por mais cinco minutos de uma só vez.

Mais um que pode ser insuportável é o sabe-tudo. É provável que a oposição vá começar com suas intrigas e dizer que eu faço parte do grupo, mas não acreditem em tudo que vocês escutam por aí. Bom, o sabichão é aquele que discute qualquer assunto, tema, tese ou hipótese, real ou imaginária. Apresenta datas, fatos, relatos, documentos, pesquisas, estatísticas… tudo que possa tornar credível o seu discurso. E quando ele não sabe, ou melhor, quando achamos que ele não sabe, das duas uma: ou ele inventa ou ele dá uma de superior e diz: “- Não vou discutir com você!”. Em geral são boas pessoas, mas no dia em que resolverem alugar um de vocês para discutir algo interessante como o processo de acasalamento das lesmas em dias de verão, poderão se tornar mais chatos do que ouvir conversa mole de candidato em horário eleitoral.

Agora o que mais me impressiona é o tipo sobrevivente. Aquele que faria inveja ao Wolverine e sua capacidade mutante de regeneração. Conta que já sobreviveu a assaltos, choques elétricos, mordida de animais peçonhentos, facadas, tiros, acidentes automobilísticos, acidentes domésticos… Ostenta, como verdadeiros troféus de guerra, cicatrizes invisíveis, mas que ele jura que estão ali, e garante que tem tantos parafusos e placas de metal espalhados pelo corpo que não pode passar a menos de 50 metros de um eletroímã.

Seus relatos são de arrepiar e é mesmo difícil de acreditar que um ser humano comum resistiria a tudo aquilo. Eu, particularmente, não suportaria a metade, tenho horror a sangue e quase desmaio com um simples arranhão.

Mas “O Homem” é uma lenda e sempre que nos encontramos fala de uma aventura diferente. Hoje, por exemplo, vamos jantar juntos e ele prometeu que ia me dizer a como foi na vez em que ele se deu mal e morreu. Estou ansioso para saber o que aconteceu e dou a minha palavra de que conto tudo a vocês numa próxima oportunidade, podem esperar.

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 02/04/10

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13 Comentários

Arquivado em Crônicas do GUS

13 Respostas para “A última Coca-Cola do deserto

  1. ju vilaça

    Eu não me identifiquei com ninguém, mas tem uns aí que eu sei quem é eheheheheheh.

    • Augusto Vilaça

      Esse é o tipo de pessoa que sempre estão nos rodeando, volta e meia damos de cara com um.

      Amor, valeu a visita e o comentário.

      Do Timor, com carinho.

      P.S.: tá pertinho…

  2. Frank

    Pôxa vida, que texto mais sem noção rapá!
    Não conheço ninguêm assim, mas tenho assunto pra colocar em dia contigo… eu já te contei do dia que fiquei em cima de uma moto completamente sem controle, quase como o boi bandido, e eu lá, firme em cima durante os 8 seg. … e quanto eu caí numa velocidade de mais de 80 km/h e quebrei apenas o pulso… e quando eu bati com a moto de frente com um carro e não tive nem um arranhão… aaaaa tenho muita história pra contar… mas fica pra quando tu voltar, tenha paciência heim!

    • Augusto Vilaça

      Eu conheço muita gente assim, e já ouvi histórias tão fantasiosas que deixariam o Geroge Lucas e o Steven Spielberg com inveja.

      Mas se você tiver paciência para ouvir e autocontrole para não desmentí-los imediatamente, pode conseguir assunto para debaterem por um longo tempo.

      Ah, sabe o que é legal? Brincar de jogo dos sete erros: pede a ele para contar a mesma história diversas vezes e tenta notar se ele mudou alguma coisa.

      Obrigado pelo comentário e estou ansioso para ouvir suas lorotas, digo, histórias.

      Do Timor, com carinho.

  3. Sobre a coca-cola me inclui naqueles que só tomam guaraná….. mas com realção a ser ou conhecer alguém do tipo, isso não falta. Porém perto de mim esses não chegam tão fácil não, pois sou do tipo que não aguento conversa comprida, tão pouco assuntos de super-hérois, sim porque tem gente que só falta vestir a roupinha.

    A minha chatiche atrapalha a convivência com alguns seres.

    • Augusto Vilaça

      Sinceramente, não achava que haveria alguém, além do meu primo, a se incluir naquele grupo, ehehehe.

      Pois é, esse tipo de gente pode ser insuportável, mas, por outro lado, e dependendo do nosso estado de espírito, pode até ser uma experiência engraçada.

      Também não sou exatamente um poço de paciência para esse tipo de conversa fiada e, mesmo que eu me esforce, acabo por fazer um comentário azedo…

      Obrigado pelo comentário,

      Do Timor, com carinho.

  4. AMIGO…

    ESSA FOI MUITO BOA!!! KKKKKK
    PARECE ATÉ QUE CONHEÇO ALGUMA DESSAS HISTÓRIAS, NÃO SEI PORQUE?
    EU CONHEÇO ALGUMAS PESSOAS QUE SE INCLUEM EM ALGUM DESTES GRUPOS, MAS TEM UMA “PESSOA” QUE FAZ PARTE DE TODOS ESTES, SEM CITAR NOMES, MAS ESSA PESSOA QUANDO COMEÇA A FALAR É ASSIM: “É O GALÃ MAIS LINDO E INTELIGENTE DO MUNDO, SABE DE TUDO E DE TODOS, ELE DIRIGE CARRO E MOTO COMO NINGUEM, ESQUECI, ELE NÃO DIRIGE, ELE PILOTA, POIS O MOTOQUEIRO FANTASMA FICA NO CHINELO.
    TODAS AS VEZES QUE ELE SE ACIDENTOU, A CULPA FOI DOS BARBEIROS, E TODOS OS ACIDENTES FORAM MIRABOLANTES, POIS ELE PODIA SER DUBLE DE FILME DE AÇÃO, TEM TANTOS PINOS E PLASCAS QUE QUANDO TENTA ENTRAR EM BANCOS FICA PRESO NA PORTA. ESQUECI, NINGUEM FALA E ESCREVE O PORTUGUÊS E O INGLES COMO ELE, ELE JÁ ENSINOU ATÉ OS PROFESSORES… AH, DA PARTE DE GALÃ PEGADOR, NUNCA COMENTOU MUITO, MAS DEIXAVA NO AR… COMO É OTIMO SER TÃO BOMMMMMMMM…”
    AMIGO, SOU CRAQUE NESTE TIPO DE PESSOA, TU VEZ ALGO MUITO GRAVE, NUNCA CONTRARIA E NEM RI, POIS FAZEM UM DRAMA E FICAM UMA FERA…KKKKKKK

    ABRAÇO

    DO CAPÃO, COM CARINHO

    • Augusto Vilaça

      Conheço tantos tipos assim que não faço ideia de quem você possa estar falando. Aliás, tentei fazer uma “coletânea” dos mais memoráveis.

      Mas fico contente, gosto quando os leitores se identificam de alguma forma com os textos, sinto-me realizado.

      Obrigado pelo comentário e cuidado com o que você fala a tipos assim, ehehehe.

      Do Timor, com carinho.

      • AMIGO
        REALMENTE TU NÃO FAZ IDÉIA DE QUEM EU FALEI, POIS ESTA PESSOA MOROU EM PELOTAS, MAS HOJE MORA EM FLORIANOPOLIS…
        DIVULGUEI TUA CRONICA PARA ALGUNS AMIGOS QUE CONHECEM ELE, E PERGUNTEI, “DE QUEM ELE ESTÁ FALANDO?” E TODOS FALARAM QUE TU TINHA ESCRITO PARA ELE… CLARO QUE MEU COMENTÁRIO AJUDOU… FOI BEM ENGRAÇADO…
        AH, NÃO IMPORTA O QUE VOCÊ FALA PARA ESSES TIPOS, POIS SE FOR ALGO BOM, É ELOGIO, MAS SE FOR UMA CRITICA NÃO MUITO BOA, É INVEJA, POIS TODOS QUEREM SER IGUAIS A ELES… HEHEHE!!!

        ABRAÇO
        DO CAPÃO, COM CARINHO.

        • Augusto Vilaça

          Bem, eu pensava que… ah, deixa pra lá, eheheheh.

          Obrigado por divulgar a crônica! Quem sabe eu não viro um escritor famoso um dia e te dou uma cópia autografada do meu livro?

          Do Timor, com carinho.

          • EU SEI BEM O QUE TU PENSOU, POIS RECONHECI ALGUMA DAS HISTÓRIAS… EHEHEH!!! MAS COMO TU DISSE, DEIXA PRA LÁ…
            AH, QUANDO FORES UM “PAULO COELHO” QUERO VER SE VAIS LEMBRAR DESTA PROMEÇA, VOU COBRAR ESTA COPIA AUTOGRAFADA… NUNCA ESQUEÇO DAS PROMESSAS QUE ME FAZEM…

            DO CAPÃO, COM CARINHO.
            ABRAÇO

  5. OLHA O ERRO DE PORTUGUÊS AI GENTE…
    “PROMESSA”… SE UM DAQUELES TIPOS OLHA ISTO INFARTA… HAHAHA!!!

    • Sem crise, quem manda no Blog são os meus leitores e eles têm o direito de escrever como quiserem, já até escrevi sobre isso ( O Cegalla e o Pascoale que me perdoem ).

      Mas sendo promeça ou promessa, preciso da sua ajuda! Quanto mais divulgarem meu Blog, mais visitas, mais reconhecimento e, quem sabe numa dessas, algum editor me descobre. Prometo até que se eu for entrevistado no Jô, mando um beijo especial para a leitora de Capão do Leão.

      Valeu a visita!

      Do Timor, com carinho.

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