Quem for chegando, vai ficando atrás

Como aqueles que acompanham as minhas crônicas devem ter percebido, meus lampejos de nostalgia vão e voltam.Esta semana, tentei resgatar um aparelho de celular que a operadora daqui estava oferecendo para quem fizesse uma recarga no valor de 10 dólares, porém não consegui, quando me deparei com aquele amontoado de gente e tracei mentalmente um gráfico comparativo de valor agregado da premiação versus estimativa de tempo despendido focado no macroambiente (é nisso que dá inventar de fazer os tais dos cursos de “Gestão”), desisti.

Vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com nostalgia, mas é que, quando eu vi aquele monte de gente se acotovelando, sem nada que pudesse dar a mais vaga ideia de algo que se parecesse com uma fila, lembrei-me dos tempos criança, quando estudava no Colégio da Polícia Militar e, na hora em que chegávamos, formávamos uma coluna com todos cantando: “quem for chegando, vai ficando atrás, pois menino educado é assim que faz…”.

Tem coisa mais irritante do que fila? Chega a dar desânimo olhar pr’aquele mundo de gente na sua frente, e a mínima projeção do tempo que será perdido aguardando a sua vez é simplesmente desesperadora.

Essa conversa de filas é tão séria que tem até leis tratando do assunto. Desde a Lei de Murphy, que diz: “não importa a fila em que você esteja, a do lado sempre andará mais rápido”, até as leis que tratam do tempo máximo de permanência em filas como as dos bancos. Entretanto, falando sinceramente, a única que vejo sendo aplicada ao meu caso é a de Murphy, e não falha nunca…

Se isso não bastasse, ainda aparecem os espertalhões que, quando não furam a fila na maior cara-de-pau, arrumam as mais diferentes formas para se posicionarem melhor. Quando não é um carrinho de compras, é alguém que fica ali, marcando o lugar, enquanto o indivíduo segue fazendo outras coisas.

E no cinema, então? A fila quilométrica, você lá, desde o meio-dia, esperando a vez de comprar o ingresso para a sessão das dez da noite, quando chega alguém que procura, procura e acaba encontrando, lógico que na sua frente, amigos de infância, dos tempos do maternal e que não se veem há décadas, com quem começam a puxar conversa e seguem “botando o papo em dia” até que chegam ao guichê, compram as entradas e saem, cada um pro seu lado. Para a coisa ficar ainda pior, ele é exatamente a pessoa que leva os últimos tíquetes e esgota os lugares na sessão do filme que você estava planejando assistir desde o mês passado.

Por outro lado, e por incrível que pareça, tem gente que gosta de enfrentar filas. Se não fosse assim o pessoal de São Paulo nunca sairia de casa, as escolas funcionariam por sistema de Educação à Distância, os escritórios seriam todos virtuais e comida só por telefone, os moto-boys dos restaurantes seriam os únicos que precisariam sair para alguma coisa: fazer as entregas; mas, do jeito que eles pilotam, a última coisa que eles se preocupariam seriam exatamente as filas.

Aliás, falando nos habitantes da maior cidade do país, que outro maluco teria a brilhante ideia de encarar milhares de quilômetros de engarrafamentos diariamente, além das filas nos pedágio, nos supermercados, nos restaurantes, nas repartições públicas, nos banheiros de bares e boates, nos parques e em tudo o mais? Algo que merece um estudo à parte são os feriados prolongados, quando os paulistas ou paulistanos (nunca acerto…) inventam de procurar um refúgio daquela selva de pedra com céu cinzento do dia-a-dia, demoram tanto as viagens de ida e de volta que não dá nem para aproveitar o lugar e já está na hora de voltar, tem que gostar muito de sofrer em filas mesmo.

Agora uma coisa é certa, como disse um amigo: “a necessidade é a mãe da criatividade” e, diante do problema que é tudo isso, surgem os prestadores de serviço, aquelas pessoas dedicadas e pacientes que fazem questão de aliviar o nosso sofrimento, entram e saem milhares de vezes das filas e são capazes de oferecer o “vale-lugar” por módicos 5 reais. Uma pechincha, considerando o tempo que será poupado. Quem nunca viu, é só ir em qualquer hospital público e dar uma bisbilhotada lá onde o povo implora pelo atendimento.

Uma versão mais tecnológica disso são as empresas online de venda de ingressos. Para quem não lembra, o último show do U2 em São Paulo (sempre São Paulo, né?) gerou filas que chegavam a 10 quarteirões, assim, quem se incomodaria em pagar 50 ou 60 reais a mais para ter as entradas entregues no conforto do lar?

Mas é assim mesmo, no Brasil temos fila pra tudo: pra tentar arrumar emprego, pra tentar abastecer o carro antes que a gasolina aumente, para tentar ser atendido pelo sistema único de saúde, para tentar matricular os filhos na escola pública, para tentar receber o seguro desemprego, para tentar se aposentar, para tentar ver seu direito ser reconhecido na justiça… ufa! É tanta fila que eu vou parafrasear o Policarpo Quaresma: “ou o Brasil acaba com as filas, ou as filas acabam com o Brasil”, afinal as leis existem para serem cumpridas e, no corolário de Murphy, tem outra que diz: “quanto mais tempo esperamos numa fila, maior é a chance de estarmos na fila errada”. Pior é que alguns fatos que têm sido veiculados recentemente na imprensa me dão a clara impressão de que o Brasil já está na mesma fila há 510 anos, acho que já é hora de mudar.

E se algum de vocês não concordar comigo e estiver com vontade de me criticar, não tem problema, pode entrar na fila.

Do Timor, com carinho.

Gus,

Díli, 05/03/10

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas do GUS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s