Um breve estudo hipocorístico

Não adianta! Apelido é algo que não consegue me tirar do sério. Desde quando eu era criança, passando pela crítica época da Academia Militar, de onde quase ninguém saiu ileso, que tentam. Dos mais idiotas aos mais criativos, nunca conseguiram colocar um que “assentasse” bem em mim. Já tentaram: Dandão (meu irmão, que tem síndrome de Down, quando era mais novo e tentava me chamar de grandão), alma branca, Zé Gotinha, criado com vó, Tricogaster* e até Papai Noel.

Na minha pouca experiência eu posso dizer que só há duas maneiras de rebatizar alguém, em definitivo, com uma alcunha: ou você olha para o indivíduo e não enxerga outra coisa senão aquela característica ressaltada no apelido, ou tem que contar com a indignação do sujeito que, como se diz lá nas bandas do nordeste, “pega ar” e quer partir pra briga. Como ainda não descobriram um que me fosse inegável, nem eu me irrito com a brincadeira, vou seguindo incólume.

Sei que também há o caso dos apelidos que são diminutivos do próprio nome da pessoa: Zé, Dani, Ju, Gui, e por aí vai… mas isso já faz parte do pacote original escolhido pelos pais na hora do registro e não conta para os propósitos deste texto.

Assim como o Mário Prata em seu livro: “Minhas mulheres e meus homens”, observei que também tenho uma lista de conhecidos com nomes e cognomes, se bem que não me recordo de nenhum tão fantástico quanto o que ele mencionou: “açucareiro”, o coitado tinha a cabeça grande e redonda e ainda adornada por grandes orelhas de abano. Assim fica difícil, não tem nem como contra-argumentar, tá na cara (e nas orelhas) que a coisa vai pegar.

Mas, voltando à minha lista, posso dizer que, fazendo um breve estudo hipocorístico, achei exemplos bem interessantes:

Baré: para quem não se recorda, a “Baré Cola” era um refrigerante vendido em garrafas daquelas de cerveja (600ml), pela metade do preço de um convencional. Feita a introdução, vamos à história: quando eu era mais novo, todas as vezes que terminávamos uma pelada, tinha um amigo que só tomava Baré Cola, e ainda zombava de nós dizendo que tomava mais e pagava menos (até daria uma boa campanha publicitária). De tanto tomar a tal da Baré Cola, ganhou o apelido de “Baré”. Com o passar do tempo, só o chamávamos assim. Um dia fomos à casa dele, para convidá-lo para a pelada e, depois de tocar a campainha, a mãe dele nos atendeu. Eu e os colegas olhamos para ela e começamos a frase: “- A gente veio aqui pra chamar err… eeerrr…”, parecia que estávamos com amnésia, o nome não saía e não tínhamos a coragem de perguntar pelo “Baré” para a mãe dele. O impasse continuou por algum tempo (uma eternidade para nós), até que ela perguntou: “- Vocês querem falar com Baré?”. Com um sorriso amarelo de alívio, dissemos que sim. Ela se voltou pra o interior da casa e disse: “- Igor! Tem uns amigos teus aqui”. Nesse exato momento, um olhou pra cara do outro como se quisesse perguntar: “- Vocês sabiam que o nome dele era Igor?”

Outra figurinha carimbada na relação é o Chico Singular: o cara faltou às aulas sobre o plural na escola e, ainda por cima, desenvolveu uma certa alergia ao “s”. Num de seus famosos discursos ele saiu com esta: “- Estimaria, inicialmente, dar os parabém aos cadete, por ter representado bem o nosso estado nos jogo acadêmico”. Será que ainda precisa explicar alguma coisa?

Também não ficaria de fora o Rarrô, eletricista de confiança da família há anos. Tudo começou quando ele era criança e tinha problema de dicção. Sempre que ele estava brincando na rua e a mãe dele o chamava, ele respondia: “Rarrô, mãe!”. Ficou assim, até hoje, mesmo depois de ter resolvido o problema fonoaudiológico. Ah, fui descobrir o nome dele não faz muito tempo.

Mais um que não pode ser esquecido: Alice. Alice é o apelido de um policial que trabalhava comigo, de quase dois metros de altura e pesando uns 130kg. Há controvérsias sobre a origem do apelido, entretanto, o fato é que ele, simplesmente, sai do sério quando o chamam, carinhosamente, dessa forma e responde: “- Alice é a mãe!”. A hipótese amplamente disseminada, e que ele insiste em dizer que não passa de “intriga da oposição” é a de que seria o nome de uma mulher que o traíra, mas que ele teimava em não acreditar na suposta infidelidade. Na contramão da história, tenho de admitir que ele era um dos melhores apelidadores que eu já conheci, autor de pérolas como: Leão Tosado. O apelido foi tão perfeito que embora nunca tivéssemos visto um leão tosado, era só olhar para o infeliz que teve o azar de receber a alcunha e visualizar a imagem.

A lista é enorme e daria um livro, igual ao do Pratinha, mas como eu ainda não estou com essa bola toda para escrever um livro, tenho que encurtar o texto para caber numa simples crônica.

Uma possibilidade seria escrever periodicamente outros capítulos sobre o mesmo tema, afinal é injusto não falar sobre o Rato de Laboratório, o Zé Pinguim, o Kalunga, o Nananinha, o Sahara, o Chuck, o Pimpolho, o Cara de Cavalo, o Tatu, o Kiko, o Tchank, o Mulungu, o Boca de Véia, a Queixo de Tamanco, o Zé Mentirinha, o Sabiá Ranzinza, o Filé, o Marinara, o Tabaquinha… E aí? Se achou na lista? Se não, não se desespere, só tenha um pouco de paciência e espere os próximos fascículos.

Do Timor, com carinho,

Gus,

Díli, 05/12/09       

 * Tricogaster – peixe também conhecido como: Gourami ou Trichogaster. Predominantemente branco, o corpo costuma ser oval e alongado

* Hipocorístico – Qualquer palavra de valor afetivo, usada no trato familiar, pela qual se designa carinhosamente a pessoa na intimidade e que representa uma simplificação ou modificação do nome, espécie de apelido ou alcunha.

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5 Comentários

Arquivado em Crônicas do GUS

5 Respostas para “Um breve estudo hipocorístico

  1. Dalva Regina

    Adorei essa do Chico singular. Não gosto de apelidadr ninguém porque o que eu disser sempre fica. Nem meus ex alunos não se escapam principalmente quando se autointitulam. Mas pela característica não consigo me calar, Como”Formiga Atômica” por exemplo, “Piramide” pelo fato de da estimada colega faltar a aula sobre: acentuação gráfica e não ter aprendido a colocação dos acentos gráficos e “Chipa” por ter cara de Chipanzé,..e outro pelo simples fato de ter o sobrenome relativo a “cavalo” em italiano e etc…Fora as alcunhas familiares.Até mais

    Do Brasil com carinho,

    Dalva Regina

    • Augusto Vilaça

      Há pessoas com o dom de “batizar”, eles olham pra pessoa e pronto, tá feita a coisa. Aí é esperar pra ver se o individuo se irrita ou se os outros reconhecem nele aquela característica ressaltada.

      Mas eu sabia que iriam gostar da história do Chico Singular, realmente é uma história “singular”, ou não é?

      Bom você falou dos apelidos dos outros, e qual o seu? Os meus tão ali…

      Obrigado pelo comentário.

      Do Timor, com carinho.

      • Dalva Regina

        Meu pai é um grande conhecedor dessa arte. Pergunte ao Becker ele conhece bem o meu pai. Que eu tenho essa herança é inegável. Não sei se apelidar os outros é ser feliz, mas que eu tenho esse dom de “Batizar” eu tenho. O meu? Bem o meu é apenas “Mana” para todos os familiares e alguns ex colegas. Pois é cara! “Chico Singular” é especial de primeira rs sr rs rs. Me divirto muito com apelidos… e é só senão vou falar demais rs rs rs rs rs rs

        Do Brasil com carinho,

        Dalva Regina

  2. Super divertido Augusto,
    adoro o tempo de suas crônicas. Consigo ler como se vc estivesse me relatando em uma conversa…
    Parabéns,
    Bom caminho, viu?
    Siga firme…
    bjsss

    • Augusto Vilaça

      Oi Mirella,

      Em primeiro lugar, obrigado pela visita, espero que sejam mais frequentes.

      A ideia das minhas crônicas é essa mesmo: uma conversa entre amigos, onde conto as coisas que me rodeiam, não perdendo a chance de colocar uma pitadinha de vinagre pra temperar.

      Outra coisa é que eu escrevo porque sinto vontade, me ocupa o tempo de maneira produtiva, então, se depender de mim, vou continuar com essa “terapia ocupacional” por muito tempo.

      Mais uma vez, obrigado pela visita e pelo comentário.

      Do Timor, com carinho.

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