Um trimestre já se foi

Hoje é um dia especial, completamos 3 meses de missão aqui no Timor Leste. Bom, na verdade, se contarmos da data em que partimos do Brasil, o correto seria dia 05 de agosto, mas, segundo os registros oficiais da ONU, iniciamos a missão em 08 de maio de 2009.

Um quarto da jornada se passou. Sei que muitos dizem que, depois que a gente se acostuma, o tempo voa. Pois vou dizer: se voa, é na velocidade de uma tartaruga com asas de galinha. Para mim, os dias duram uma eternidade (infelizmente, com as noites, a coisa é o oposto, sempre acordo com aquela impressão de que poderia dormir um pouco mais…). Tudo bem, 25% já passou, só que ainda faltam 75%.

Nesse meio tempo, algumas datas importantes passarão sem que eu esteja por perto: aniversários, dia dos pais, mais aniversários, dia das crianças, natal, ano novo… Em muitas delas será a primeira vez, em 33 anos, que eu não estarei fisicamente presente. Mas não vou baixar a cabeça. Bola pra frente! Afinal, eu fui voluntário para estar aqui e sabia que a coisa não era uma viagem de férias.

Nesses noventa dias, vivemos muitas coisas. A maioria delas vocês puderam acompanhar através de minhas crônicas. Algumas marcaram bastante e outras merecem ser esquecidas. Tudo é um eterno aprendizado. Em pouco tempo, formamos uma espécie de família substituta por aqui, nós, os quatro mosqueteiros, temos tentado viver e conviver da melhor forma possível ou, como eu costumo dizer: “bem, como dá pra ser”.

Que bom que nos demos tão bem e conseguimos nos entender perfeitamente. O paulista, esforçado, aprendeu inglês sozinho para chegar até aqui, é o homem das contas, o nosso tesoureiro, ajuda na limpeza e, vez por outra, faz das suas na cozinha. O baiano metido a gaúcho, tem um ego de argentino, mas é gente boa, um meninão de 38 anos, só compra coisas de grife e é fissurado em música disco (que ele jura que sabe dançar). O paraibano, matutinho de Sousa, chegou puxando uma maletinha de madeira, é o braço direito (e esquerdo, e pernas direita e esquerda e, muitas das vezes, a cabeça também) do nosso amigo baiúcho (mistura de baiano com gaúcho), não se nega a nada e está sempre disposto a ajudar: me divirto bastante com ele, batendo papo e lembrando do nosso linguajar do sertão.

Na casa, eu sou uma espécie de síndico, ao menos eu me autoproclamei. Como ninguém reclamou, dei o golpe e assumi o poder que estava acéfalo. Sempre que dá, estou lá na cozinha, preparando alguma coisa que nos lembre do nosso Brasil. Não ajudo muito na limpeza, se eu não fazia em casa, não ia ser aqui, do outro lado do mundo, que eu iria mudar, não é? Mas sou o responsável por resolver boa parte dos problemas da casa.

Afora eles, no nosso círculo de relacionamentos, temos mais dois brasileiros do contingente policial e alguns outros prestando serviços diversos à ONU ou a outros órgãos que atuam aqui no Timor Leste.

O trabalho aqui também nos levou a conhecer muitas pessoas, de diferentes lugares do mundo, com culturas, línguas, costumes e crenças diferentes da nossa. É uma experiência e tanto. Descobri até que existe um país chamado Vanuatu. Alguém já tinha ouvido falar?

E os dias vão se passando, embora eu ache que numa marcha mais lenta do que deveriam, costumo contabilizá-los dizendo que cada dia que passa é mais um dia a menos para o final da missão. Tudo isso está sendo uma oportunidade incrível, em que pese a saudade de casa e dos que lá ficaram. Tenho crescido muito, seja como profissional, seja como pessoa, e uma das maiores lições é a de que devemos valorizar até as menores coisas, nunca saberemos quando elas nos farão falta.

Peço desculpas se este texto não teve o humor de costume, mas certas coisas nos deixam um tanto melancólico. Prometo que ao chegar ao sexto mês, quando começar a descer a ladeira, e tiver, ainda que ao longe, a visão de casa, escreverei algo mais alegre e que tenha a ver com o estado de espírito com que quero encontrar a todos na minha volta ao lar.

Do Timor, com carinho,

Gus,

Díli, 08/08/09 (três meses se passaram e hoje é mais um dia a menos para o final da missão)

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Crônicas do GUS

4 Respostas para “Um trimestre já se foi

  1. Parece que o tempo só voa quando estamos em lugares que amamos…

  2. ELISÂNGELA

    PARECE QUE O TEMPO VOA QUANDO ESTAMOS NO LUGAR E COM QUEM AMAMOS… POIS A SAUDADE DE QUEM AMAMOS É INFINITAMENTE MAIOR DO QUE A SAUDADE DO LUGAR. SE ESTAMOS COM QUEM AMAMOS O LUGAR É APENAS UM DETALHE. DISSO TENHO CERTEZA… SÓ PARA COMPLEMENTAR O COMENTÁRIO ANTERIOR.
    PS.: ESSA PARTE DO COMENTÁRIO PARA TUA ESPOSA, POIS SEI QUE ELA VAI LER ISTO…
    ESPOSA DO VILAÇA
    VOU TE CHAMAR ASSIM POIS NÃO TE CONHEÇO, MAS GOSTARIA DE TE CONHECER, E NEM SEI TEU NOME, POIS QUANDO ELE FALA EM TI NAS CRONICAS ELE SEMPRE FALA DA “MINHA MUSA, A MINHA AMADA”.
    AH, O COMENTARIO NÃO FOI EM RELAÇÃO A ELE, POIS NEM O CONHEÇO, MAS ADORO AS CRONICAS DO TEU ESPOSO, E ADORO ELE TAMBEM, PORQUE É ELE QUE ESTÁ ALIMENTANDO O ARNALDO, ACREDITO QUE NÃO ESTÁ ALIMENTANDO TÃO BEM ASSIM, COMO ELE DIZ, POIS VI POR FOTOS E O ARNALDO EMAGRECEU BASTANTE… HAHAHA!!!
    AMIGO TE PUXA NA COZINHA, SENÃO O POVO VOLTA FRACO… HEHEHE!!!
    ABRAÇO

  3. Caro Gus,

    Muito interessante a narrativa desta sua passagem pelo Timor. Espero que seja sempre um tempo de colheita.

    Ainda bem que há essa tal de rede, que ocupa seu tempo queria seria livre e não deixa a vida correr tão assim na velocidade de tartaruga. Nada como poder ter com quem “chatear” nossos assuntos afins.

    Não sei se houve festa nesse dia 30/08, no Timor…
    Vi um artigo no blog do Jornal do Brasil – Rio e pensei em você aí no timor.

    Segue endereço e um parágrafo que destaco. Que a democracia seja a soberana nessa terra onde ora habita.

    Abraços,

    TT ( de Alma Carioca / http://www.almacarionet.com )

    JBlog – Hoje na História | Jornal do Brasil –
    30 de agosto de 1999 – Timorenses votam pela independência. 30/08/2009 – 00:01 |Enviado por: Thiago Jansen. A independência alcançada em 1999 não foi …

    http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=15206

    O jurista líder da resistência timorense José Ramos-Horta, que disse sempre ter acreditado que a pena tem mais poder que a espada, estava sorridente ao usar a caneta para votar pela independência de Timor Leste, em Sídnei, onde, na época, vivia exilado. “Pela paz em Timor e por todos que morreram nos últimos 24 anos”, disse, ao depositar seu voto na urna. “Esse referendo mostra a tremenda beleza da democracia: a urna é mais importante que o canhão”, complementou.

  4. Frank

    1º eu conhecia Vanuatu, Discovery é demais!!!
    Saudade velho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s