Vai uma auto-ajudinha aí?
Hoje, abri a carteira e não tinha um único centavo. Não foi a primeira vez em que isso me aconteceu, e é provável que já tenha ocorrido com algum de vocês também. Talvez motivado pelas notícias da crise mundial, as oscilações das bolsas e a grande desvalorização do dólar em relação ao real, me veio à cabeça aquela velha e mentirosa máxima (perdoem-me aqueles que concordam com ela): “o dinheiro não traz felicidade”.
Não sei se já se aperceberam disso, entretanto os grandes defensores e disseminadores de tamanha lorota são, exatamente, os que já estão tão cheios de recursos monetários, que quanto maior lhes é a fortuna, mais trabalho eles têm para contá-la e decidir como gastá-la, e isso pode parecer algo penoso e desagradável. Queria vê-los convencerem alguém, que não tem nada do que eles têm, a lhes dar razão.
Nunca fui fã e nem ocupei meu tempo lendo livros de auto-ajuda, também não pretendo criar uma visão mesquinha e egoísta, contudo creio que um escritor que se dedica a publicar um livro com os “segredos para acertar na loteria” teria um retorno financeiro muito maior se aplicasse seus conhecimentos (desde que, efetivamente, funcionassem) para ganhar nos tais sorteios do que esperar o baixo retorno financeiro resultante da venda dos livros.
Então, meus caríssimos, em verdade eu vos digo: muito cuidado ao seguirem os conselhos de vida de “gurus” que pregam o caminho da felicidade através da total libertação do “vil metal”. Se eles estivessem tão desapegados assim, não se empenhariam tanto em escrever, divulgar e vender, isso mesmo, vender suas receitas maravilhosas de uma vida perfeita. Pelo contrário, eles a distribuiriam gratuitamente, pelo simples prazer de fazerem os outros felizes, ou não eram essa a intenção?
Por falar em auto-ajuda, atualmente é quase impossível não encontrar alguém vendendo fórmulas miraculosas para a solução de qualquer problema: “como ganhar dinheiro e ser feliz”, “como não ganhar dinheiro e ser feliz”, “você é do tamanho dos seus sonhos” (e seu chefe do tamanho do seus pesadelos), “fique rico sem trabalhar”, e segue-se uma infinidade de temas, mais ou menos pitorescos ou hilariantes.
Aproveitar-se da ilusão e do despreparo alheios, que, no meu pouco conhecimento de direito, é definido como fraude, acaba por ser o caminho mais curto para escrever best-sellers e fazer fortuna. Agora, eu nunca vi uma pessoa centrada, equilibrada e consciente de suas habilidades e competências endeusar escritores e perder seu tempo com verdadeiras lavagens cerebrais dignas daqueles sistemas de venda em pirâmide.
Em uma única pesquisa na internet, experimentei buscar o verbete: “auto-ajuda” e encontrei nada menos que 4.270.000 resultados e olhem que nem usei nenhuma variante. Isso só serve para provar a disseminação de tais “mapas do tesouro” entre nós. Olha aí, até gostei do termo: “mapa do tesouro”, pena que, pelo que vemos, só quem consegue chegar até o “X” e encontrar a arca escondida é quem escreveu e nunca aqueles milhares que os compraram, enchendo, assim, o baú de moedas.
Não sei… Pode ser que eu esteja errado e nadando contra a corrente, afinal eu escrevo as minhas crônicas com a intenção de arrancar sorrisos de quem as lê, de torná-los pessoas mais felizes. Nem assim eu consegui uma única editora que quisesse publicar meus textos. É bem provável que eu tenha comprado o mapa errado.
Taí uma boa ideia. Vou começar a pensar em algum problema que aflija a humanidade, vou desenvolver uma técnica qualquer de mentalização e rumar ao sucesso literário. Se tantos já conseguiram, por que não eu? É só imaginar! Foco nas minhas capacidades! Eu sou capaz! Eu sou capaz! O sucesso está ao meu alcance! Tudo depende da minha garra e determinação. O mundo está aos meus pés, basta olhar em frente e seguir adiante.
Teve jeito não. Por mais que eu me esforçasse e buscasse atrair só os fluidos positivos, não apareceu nem uma moedinha sequer na minha carteira. O vendedor olhou para mim como se não tivesse entendido bulhufas e com cara de “o que é que eu tenho a ver com isso?”. Não tive alternativa a não ser me desculpar e devolver o pacote de pão. Amanhã eu me lembro de pegar dinheiro antes de sair de casa.
Do Timor, com carinho,
Gus
Díli, 21/10/09
Publicado em 2 Novembro 2009 de 12:00 pm e arquivado sobre Crônicas do GUS com as tags auto-ajuda, Crônicas do GUS, dinheiro, fórula da felicidade, feliz, loteria, mentalização, vil metal. Você pode acompanhar qualquer resposta por meio do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou trackback do seu próprio site.
4 Novembro 2009 às 9:15 pm
Pois é, também nunca fui fã de livros de auto ajuda, inclusive no momento estou mergulhado em livros técnicos: Photoshop CS4…Dreamweaver… bla bla bla… A muito tempo não tenho tido uma leitura com o mesmo prazer do qual assisto a filmes. Mas é isso, carteira só com documentos é uma coisa comum hoje, mesmo que existam os cartões de crédito que substituam o dinheiro “vivo” (segura senão ele foge). O problema é que tem padaria que não aceita, então, leva a moedinha.
Abração velho, o trampo aqui aumentou e tá complicado. Sem internet em casa por enquanto, por isso ainda não te mandei uma proposta de nova interface, minhas sinceras desculpas.
4 Novembro 2009 às 9:22 pm
Se a coisa fosse tão boa, els guardavam pra si. O Homem é um ser egoísta por natureza e a história seria a mesma.
Não tem essa de vender fórmula do sucesso ou da felicidade. A felicidade está dentro de cada um de nós, basta querermos que ela aflore. Já o sucesso advem do trabalho, do esforço, não tem outro caminho (a não ser o Big Brother).
Outro dia eu li uma dessas filosofias de MSN e achei interessante: “Meus amigos dizem que eu sou um cara de sorte, o fato é que quanto mais eu me esforço, mais sorte eu tenho…”, é a mais pura verdade.
Continue se esforçando em busca do seu sucesso. E não pense que eu esqueci da cara nova do site, viu?
Abração.
Em janeiro estou por aí pra tomarmos algumas.
Do Timor, com carinho.